• Antonio C. de Barros Jr.

Desejo que o seu Natal tenha sido feliz e infeliz (na medida certa)...


Imagem de Jill Wellington por Pixabay

Os efeitos do Natal nas emoções das pessoas, segundo pesquisas[1] [2] [3] [4] [5], apresentam resultados diferentes, a depender de uma série de fatores – culturais, religiosos, identitários, etc. O fato é que, nesta época do ano, recebemos e costumamos distribuir uma enxurrada de mensagens de “Feliz Natal” e cria-se, querendo ou não, certa expectativa em torno data, mesmo em um ano de pandemia. A tradição natalina está tão arraigada na cultura ocidental que, dificilmente, algum efeito não provocará.


Mas o que pouca gente se dá conta é que, se dizemos “Feliz Natal”, não é apenas por tradição ou porque temos, supostamente, os melhores possíveis votos em relação ao outro. Se o fazemos, é também (e, talvez, sobretudo) porque os votos de felicidade carregam consigo uma infelicidade que nos espreita: afinal, se um final de ano fosse sempre feliz, não seria preciso desejar a ninguém que assim o fosse.


É claro que alguns Natais podem ser e ter aspectos especiais, seja pelo reencontro com membros da família que são queridos, pelo clima festivo, pelos presentes recebidos; seja pela possibilidade de comer e de beber bem, pelo sair da rotina, descansar; seja pelo contato com certa espiritualidade ou pela razão particular que for. Mas a verdade é que as imagens de um Natal absolutamente mágico, veiculadas nos filmes, nas propagandas, nas mídias sociais, dificilmente condizem com a realidade.


Há (provavelmente quase sempre) algo como: a tristeza pelos que não estão presentes (porque nunca mais estarão ou porque estão simplesmente distantes); a lembrança da infância pobre ou infeliz, dos presentes que nunca chegavam; o incômodo (ou mesmo a raiva) do contato com aquele parente de quem não se gosta; a inveja pelo que o outro ganhou, pelo corpo que tem ou pela suposta alegria que exibe; o aborrecimento por não se encaixar no grupo de homens ou mulheres que falam de assuntos que não interessam, e assim por diante.


Mas penso que, cada vez mais, vem surgindo certa frustração (silenciosa ou não) de justamente não se viver o júbilo de um momento de felicidade “instagramável”, que ganha posts e posts, ano a ano, nas redes socias digitais. Frustração que se estende para o restante do ano e que (não me parece nada surpreendente), com ela, muitas pessoas vão ficando tristes, tendo a percepção de uma vida “sem sentido”, estando numa inquietude ou num vazio que não sabem de onde vem (abordarei isso em outro artigo).

Ainda que os posts aparentemente expressando uma felicidade imensa que vi nas redes sociais nos últimos dias a mim revelam mais da imagem que as pessoas querem construir de si, do parecer ter vivido um Natal perfeito do que propriamente tal fruição[6], talvez a pandemia da Covid-19 tenha permitido a muitos o contato com o lado “infeliz” do final de ano, lado que, muitas vezes é escamoteado, velado. É claro que esses posts expressam também a vontade de (finalmente) ter um momento de alegria, num ano tão difícil, mas é que o comportamento adotado nas mídias sociais não surgiu na pandemia e nem se restringe a ela.


Seja como for, quem sabe o Natal mais contido para muitos não fez com que pudessem abraçar esse lado "infeliz", não para entrar em desespero ou desmoronar psiquicamente, mas para se apropriar dele? Quem sabe não começaram a vislumbrar o que é realmente importante, o que, de fato se deseja e qual o preço desse desejo? Quem sabe não puderam se reconciliar com o que não se poderá ter de plenitude na nossa existência? Quem sabe não se deram conta de que, para haver momentos de felicidade, é preciso que se vivenciem momentos de infelicidade? Afinal, como já me dizia minha primeira analista, há quase 20 anos, a vida é essa eterna dialética de alegria e de tristeza. A gente só espera que sejamos capazes de lidar com o real dos infortúnios que ela nos reserva.


Desejo, portanto, que o seu Natal tenha sido feliz e infeliz, na medida certa, e que o seu ano novo o seja também, na medida que lhe permita apreciar, na intensidade que couber ao seu jeito de ser, o que é estar vivo...


Referências:

[1] MUTZ, Michael. Christmas and subjective well-being: A research note. Applied Research in Quality of Life, v. 11, n. 4, p. 1341-1356, 2016. https://link.springer.com/content/pdf/10.1007/s11482-015-9441-8.pdf

[2] SYREK, Christine J. et al. All I want for Christmas is recovery–changes in employee affective well-being before and after vacation. Work & Stress, v. 32, n. 4, p. 313-333, 2018. https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/02678373.2018.1427816

[3] PETRELLI, Daniela; LIGHT, Ann. Family rituals and the potential for interaction design: a study of Christmas. ACM Transactions on Computer-Human Interaction (TOCHI), v. 21, n. 3, p. 1-29, 2014. https://dl.acm.org/doi/abs/10.1145/2617571

[4] SCHMITT, Michael T. et al. Identity moderates the effects of Christmas displays on mood, self-esteem, and inclusion. Journal of Experimental Social Psychology, v. 46, n. 6, p. 1017-1022, 2010. https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0022103110001472

[5] PÁEZ, Darío et al. Merry Christmas and Happy New Year! The impact of Christmas rituals on subjective well-being and family's emotional climate. Revista de Psicología Social, v. 26, n. 3, p. 373-386, 2011. https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1174/021347411797361347

[6] BARROS JÚNIOR, Antônio Carlos de. Quem vê perfil não vê coração: fragilidades narcísicas e a construção de imagens de si nas redes sociais. São Paulo: Editora Escuta, 2018.

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