• Antonio C. de Barros Jr.

O medo do amor por trás do “sumiço” depois do sexo


Algumas (e alguns) pacientes, muitas vezes, queixam-se de que “todos os homens são iguais: depois de transarem (uma ou algumas poucas vezes), desaparecem”, mesmo que tenham sido atenciosos, gentis ou carinhosos antes, mesmo que as interações até ali tenham sido, aparentemente, de quem queria envolvimento afetivo.

Que possa haver um traço histórico-cultural entre nós que cultivou uma suposta qualidade nos homens “garanhões” e “galinhas”, que podem, de fato, deliberadamente sumir depois do sexo para buscar a(o) próxima(o) parceira(o), tenho sérias suspeitas em relação a generalizações absolutas (ou seja, certamente há homens que não se encaixam nesse perfil). Além disso, parece-me evidente que, por trás de cada ocorrência do “desaparece depois de transar”, há uma história de vida singular e um desencontro ou um sintoma afetivos, a serem melhor analisados.


O que constato é que, mesmo que tenha havido uma intenção legítima do homem de estabelecer um vínculo afetivo, algumas vezes algo dá errado no encontro sexual. Por exemplo, não há “química” corporal, ou a(o) parceira(o) não provoca tanta excitação na hora “H”, ou há algum incômodo em relação a algo, ou ainda a atitude da(o) parceira(o) não “se encaixa” na fantasia inconsciente do sujeito e assim por diante. Seja lá qual for o fator, é bom que se diga, tem relação com o desejo (inconsciente) do homem. Portanto, a mulher (ou o outro homem, no caso de homossexuais) pouco podia ter feito, muitas vezes, para reverter o caso. Claro que “ajustes” poderiam acontecer num encontro posterior, até porque, frequentemente, a primeira transa com alguém não costuma entrar para a lista das melhores da vida. Mas nem sempre ajustes são capazes de reverter o que está em jogo no desejo.


Seja como for, em muitos casos (a serem verificados um a um, evidentemente), o que freia o desejo não é da ordem do mero desencontro com o outro, mas da ordem do sintoma do homem, de algo que o amedronta na possibilidade de amar, que o faz recuar, se esquivar, “sumir”.

Amar é lançar-se nos braços do outro pelo que representa para o sujeito, por algo de si mesmo, por algo da mãe, do pai, de alguém significativo, por algo que nos falta que é difícil (se não impossível) nomear inteiramente. Amar é expor-se, é estar vulnerável, é estar dependente, em alguma medida, do que vem do outro, já que o amor leva consigo a expectativa de ser amada(o) de volta. Amar é oferecer-se sem garantia de que haja reciprocidade, sem garantia de que não seja abandonado no futuro. Amar é estar certo de que a dor da perda virá, algum dia[1].


É claro que isso é sempre também uma construção social e, portanto, amamos de formas diferentes de nossos antepassados na Idade Média, por exemplo[2]. Portanto, a julgar pelas análises sociológicas de Bauman[3], os amores têm-se tornado muito mais voláteis e passageiros. Que tal afirmação possa ser verdade em muitos casos e que talvez seja mesmo uma tendência, certamente nem todo mundo mergulhou nesse modo de viver “líquido”[4]. E, de qualquer forma, torço para que cada um que recua diante do amor – quer seja por sintoma social ou pessoal - possa ir atrás de (possíveis) respostas, se isso é algo que faz sofrer.


Não que não se possa levar uma vida sem amor erótico (que é desse do qual falo), mas é que, para mim, sem isso, ela parece bem mais sem graça. Compartilho da visão de um Milan Kundera sobre a “insustentável leveza do ser[5]. Ou da visão do personagem Sr. Perlman, pai do garoto Elio, no filme “Me chame pelo seu nome”, quando diz ao filho, que estava sofrendo porque a pessoa amada havia ido embora:

Nós extirpamos tanto de nós mesmos pra nos curarmos das coisas mais rápido, que vamos à falência [emocional] aos 30 anos. E temos menos a oferecer cada vez que começamos com alguém novo. Mas forçar a si mesmo a não sentir nada, para não sentir nada... Que desperdício!

Referências:

[1] Como o colega Rodrigo Luz bem nomeou em seu livro, “luto é outra palavra para falar de amor”. Portanto, se há amor, haverá luto na perda. LUZ, Rodrigo. Luto é outra palavra para falar de amor: Cinco formas de honrar a vida de quem vai e de quem fica após uma perda. São Paulo: Editora Ágora, 2021. [2] BAUMEISTER, Roy F. Identity: cultural change and the struggle for self. New York: Oxford University Press, 1986. [3] BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. [4] ANDRADE, Darlane Silva Vieira. Solteiras/os procuram? Sobre sexualidade e solteirice em Salvador. Revista Feminismos, v. 4, n. 2/3, 2016. SANTOS, Ingrid Cristina Lúcio dos. “Mulher solteira procura”: um estudo em torno da solteirice na representação social feminina. Polêm!ca, v. 14, p. 001-022, 2015. [5] KUNDERA, Milan. A insustentável leveza do ser. São Paulo: Companhia de Bolso, 2008.

Imagem do post: quicksandala por Pixabay

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