• Antonio C. de Barros Jr.

O ato criativo no envelhecer: a dor e suas possibilidades

Atualizado: Set 17


Imagem: Pixabay

A velhice tem me tocado – seja porque eu mesmo estou envelhecendo, seja porque tenho recebido idosos no consultório, seja ainda porque vejo entes muito queridos que estão nessa fase de vida.


Dificilmente será a melhor idade para alguém (como propagandas de algumas empresas querem nos fazer acreditar), mas pode ser boa, a depender de como o idoso consiga lidar com o que o tempo vai trazendo de perdas e de como pode abrir-se para algumas novas possibilidades.


Os idosos que recebo no consultório ou com os quais convivo trazem o peso de lutos que vão enfrentando nesse momento de suas existências. Perdem amigos, entes queridos; perdem alguma mobilidade e a possibilidade de andar sem dores, às vezes. Alguns perdem a capacidade de conter urina e fezes e precisam se valer de fraldas descartáveis. Outros começam a perder a memória recente, a atenção. Alguns começam a perder a audição, a visão. Perdem o viço e a firmeza da pele jovem. Muitos perdem a possibilidade de comer gordura, sal ou açúcar quando querem ou na quantidade que têm vontade, sob pena de agravar bastante sua saúde.


Mas pior que tudo isso (ou, muitas vezes, por conta de tudo isso e de outros aspectos) é quando começam a perder o seu próprio valor como sujeitos. Quando se sentem inúteis porque já não trabalham mais ou porque empresas já não lhes oferecem empregos; quando os filhos já construíram suas próprias vidas e não dependem mais deles; quando olham para trás e sentem que não viveram o que gostariam de ter vivido, que se inibiram por alguma questão, que se reprimiram por outra, que buscaram tanto o reconhecimento do Outro que, ou ele nunca veio, ou, quando veio, perceberam que a satisfação daí advinda logo se foi. Quando se dão conta de que, com o que foram perdendo ao longo dos anos, foram perdendo uma parte de si. Quando se deparam com o fim que vai se aproximando, e, com ele, o término das possibilidades de fazer algo relevante na vida. Com todo esse quadro, não é incomum que angústia surja com bastante intensidade ou que sintomas depressivos se instalem.


Bom, mas se o quadro não parece muito animador, se vivemos numa cultura que cultua o jovem, o idoso pode ser acolhido no seu processo subjetivo. Pode ser ajudado na ressignificação de certas passagens de sua vida ou até dela como um todo. Mas, mais do que isso, pode ser auxiliado no vislumbre de novas possibilidades para o tempo que lhe restaprojetos nunca desengavetados, experimentações jamais feitas, criações nunca ousadas, ou, simplesmente, a chance de fazer algo, seja lá o que for, a partir da dor das perdas que teve, dor que é inevitável.

A psicanalista Melanie Klein observava a possibilidade do ato criativo, a partir do que denominou posição depressiva em crianças. O também psicanalista Donald Winnicott, por sua vez, falava do impulso criativo que qualquer pessoa, de qualquer idade, pode ter: “quando (...) se inclina de maneira saudável para algo ou realiza deliberadamente alguma coisa, desde uma sujeira com fezes ou o prolongar do ato de chorar como fruição de um som musical” (Winnicott, 1975, p. 100).


Assim, não dizem que os idosos voltam a ser crianças? Pois é, mesmo que eles não o sejam (e não são!), podem explorar, como elas, o seu mundo e as suas possibilidades, naquilo que são capazes. Podem fazer da sua dor a sua poesia de viver, desde que exista um ambiente “suficientemente bom”, quer seja um membro da família, um amigo, um psicanalista, um terapeuta que lhes ofereçam o olhar terno e a chance de falar de si que costumamos oferecer às crianças muito jovens...


REFERÊNCIAS:

KLEIN, Melanie. Situações de ansiedade infantil refletidas em uma obra de arte e no impulso criativo (1929). In: Amor, culpa e reparação e outros trabalhos (1921-1945). Rio de Janeiro: Imago, 1996.

KLEIN, Melanie. Nosso mundo adulto e suas raízes na infância (1959). In: Inveja e gratidão. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

WINNICOTT, D.W. A criatividade e suas origens. In: O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

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