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Por que para muitos é tão difícil dizer “não”?

  • Foto do escritor: Antonio C. de Barros Jr.
    Antonio C. de Barros Jr.
  • 5 de abr.
  • 13 min de leitura

Atualizado: há 4 dias

Uma imagem conceitual e dramática que ilustra a paralisia psicológica de uma mulher diante de pressões externas. No centro, uma mulher jovem sentada à mesa tem uma expressão de profunda ansiedade e olhos arregalados. Ela está cercada por braços e mãos de pessoas ao seu redor que a invadem com demandas: um laptop com a pergunta "ACEITA?", papéis marcados como "URGENTE" e celulares estendidos.

Saindo de sua boca, mas parecendo presas ou sufocadas, estão as palavras "NÃO" repetidas vezes, envoltas em uma nuvem de fumaça escura que contém termos psicanalíticos e emocionais como "MEDO", "CULPA", "REJEIÇÃO", "ABANDONO", "FALSO SELF" e "SOMBRA DO OBJETO". Atrás dela, uma silhueta escura e opressora repousa as mãos em seus ombros, simbolizando o peso do passado ou de figuras de autoridade. O ambiente ao fundo é um escritório ou café levemente desfocado, enfatizando o isolamento interno da personagem em meio ao caos social.

Introdução

Vivemos em uma cultura em que a agressividade parece estar em todos os cantos: no trânsito, nos comentários das redes sociais, nos discursos políticos, nas brigas de família, nas guerras que se multiplicam pelo mundo. Ao mesmo tempo, no consultório e na vida cotidiana, aparecem pessoas que têm muita dificuldade de usar a própria agressividade, sobretudo quando seria necessário ou desejável proteger-se, posicionar-se ou colocar um limite na relação com o outro (por exemplo, dizer “não!”).


Este texto parte de uma perspectiva psicanalítica para pensar o que chamo aqui de certa “passividade social” - como podemos compreendê-la, por que ela existe e o que pode ser feito com ela, num trabalho psicanalítico/ psicoterapêutico?


O que é passividade social?

Chamo de passividade social um modo de estar no mundo em que a pessoa tem grande dificuldade de usar sua agressividade em seu benefício. Por exemplo, dificuldade de:

  • Dizer não quando algo a invade, a incomoda ou a machuca.

  • Confrontar injustiças mínimas ou graves que a atingem diretamente.

  • Opor-se a decisões, abusos ou exigências do outro, mesmo quando percebe que está sendo prejudicada.

  • “Aparecer” subjetivamente, isto é, sustentar uma opinião própria, uma vontade própria, diante de alguém ou de um grupo (só “aparece” no silêncio ou na aceitação manifesta irrestrita da vontade alheia).


Em outras palavras, a passividade social configura-se, tipicamente, por:

  • Um medo paralisante do conflito, visto como algo que inevitavelmente levaria à destruição do vínculo ou do próprio sujeito.

  • A formação de um "falso self" ("falso eu" ou "falso si mesmo"), que frequentemente se manifesta como uma persona educada, que satisfaz as expectativas alheias, mas resulta em um sentimento persistente de irrealidade e vazio para o indivíduo[1].


Em muitos casos, não se trata de “ser calmo” ou “ser pacífico”. Muitas pessoas de baixa agressividade aparente carregam, dentro de si, muita raiva, muito ressentimento ou muita tristeza, mas não conseguem transformar isso em gesto, palavra ou limite.


É verdade, contudo, que em outros casos, os indivíduos sequer se dão conta de que possuem agressividade, uma vez que sua noção de realidade “externa a si” não foi conquistada plenamente e nem a capacidade de se relacionar com um outro “externo”[2] [3] (não há distinção plena entre o que seria o “eu” e o que é o ambiente que o cerca, o mundo, as outras pessoas).


Em termos psicanalíticos, nesses casos todos, é como se a agressividade do indivíduo estivesse:

  • Inibida, reprimida ou recalcada de maneira maciça[3] ou

  • Deslocada apenas para o corpo (doenças psicossomáticas, sintomas físicos sem explicação orgânica clara)[4] [5] ou ainda

  • Voltada contra o próprio sujeito (autoacusação, autodesvalorização, quadros melancólicos ou delirantes)[6].

 

A agressividade é inata ou aprendida?

A questão de saber se a agressividade é inata ou aprendida atravessa a psicanálise desde Freud[7] [8] e retorna, hoje, em estudos com bebês e crianças pequenas. A resposta que mais faz sentido, à luz do que se observa no consultório e nas pesquisas, é: parece ser um misto das duas coisas.


Do lado da origem inata, estudos em psicologia do desenvolvimento mostram que bebês muito pequenos já manifestam atos de força em relação a outros – morder, bater, puxar cabelo – muitas vezes sem provocação clara, agindo por outros motivos, como a exploração das consequências sociais ("o que acontece se eu bater?") ou por uma tentativa desajeitada de interação, e não apenas em momentos de frustração[3] [9]. Pesquisas sobre moralidade em bebês, como as reunidas por Paul Bloom[10], sugerem que há, desde cedo, tanto uma base de empatia e senso de justiça, quanto tendências de hostilidade ao diferente e de favorecimento de “iguais”.


Na mesma linha, Donald Winnicott[3] entendia a agressividade como parte da própria vitalidade do bebê, ligada ao gesto espontâneo, à exploração do mundo e à possibilidade de criar e transformar o ambiente. Quando essa agressividade pode ser recebida, suportada e metabolizada pela figura cuidadora (mãe, pai, etc.), ela se integra ao amor e à capacidade de se importar com o outro. Para o autor, a agressividade inicial do bebê não tem intenção de machucar e tampouco é reação a uma frustração, como postulava Freud[7], nos primórdios de sua obra. Só mais tarde a criança desenvolveria agressividade como resposta à frustração.


Por outro lado, o meio pode amplificar ou atenuar essa agressividade inata.

  • Ambientes muito violentos e imprevisíveis tendem a aumentar a probabilidade de comportamentos agressivos, como mostram estudos longitudinais[11] [12] com crianças expostas a violência física, sexual ou negligência grave.

  • Em contextos de frustração repetida, exclusão ou humilhações constantes, a agressividade pode se organizar como defesa rígida – uma espécie de “casca” para proteger um “eu” muito ferido[3] [13].


O papel do ambiente no uso da agressividade


O espelho que sustenta ou fere: a constituição do eu e as raízes da agressividade

Em Lacan[14], o chamado estádio do espelho destaca como a imagem de nós mesmos se constrói a partir do olhar do outro: precisamos de um espelho para nos reconhecer como “eu” – espelho literal (um objeto reflexivo que nos faça nos enxergar) e simbólico (alguém nomeando que somos nós: “olha aí o bebê da mamãe!”). Tal estádio diz respeito ao momento em que o bebê se reconhece em uma imagem e identifica-se com ela, inaugurando um eu marcado por rivalidade e comparação com o outro.


Mulher sorrindo apoia bebê em frente a espelho. Ambos usam listras. Sala aconchegante ao fundo com sofá e plantas. Emotivo e alegre.

Esse espelho pode sustentar ou ferir, pensando numa leitura mais winnicottiana[15] sobre o tema:

  • um espelho acolhedor, que reconhece fragilidades e limites, ajuda a constituir um “eu” capaz de assumir responsabilidade;

  • um espelho humilhante, idealizado demais ou hostil tende a gerar um narcisismo frágil, muitas vezes às voltas com inibição, vergonha, inveja ou necessidade de triunfar sobre o outro.


Nessa lógica, o outro é, ao mesmo tempo, semelhante e adversário. Exemplos: “gostamos de brincar com as mesmas coisas”, “temos a mesma altura”, “ele está brincando com o meu brinquedo”, “recebe o carinho que eu queria”, “é mais bonito do que eu”.


Essa dimensão de rivalidade imaginária (Lacan) tende a ser um dos motores da agressividade: o outro é vivido como ameaça ao meu lugar, ao meu valor, ao meu direito de existir. Quando o ambiente consegue reconhecer essas experiências, nomeá‑las e pôr algum limite, o sujeito aprende, aos poucos, a transformar rivalidade em convivência.


Para além da rivalidade: a deprivação como motor da agressividade reativa

Winnicott acrescentou que, para além da rivalidade, existe o problema da deprivação: crianças que tiveram suas necessidades subjetivas essenciais sistematicamente não reconhecidas (depois de um período em que tal reconhecimento ocorreu) – não apenas fome ou frio, mas a necessidade de serem cuidadas, vistas, atendidas, compreendidas e sustentadas em seus gestos espontâneos – tendem a desenvolver formas de agressividade ligadas à reação contra um ambiente vivido como falho ou intrusivo[3] [16].

 

A falha básica: a agressividade como tentativa de "conserto" ambiental

Michael Balint[17] chamou de falha básica esse tipo de ruptura precoce entre o que a criança precisava e o que o ambiente pôde oferecer. Em muitos casos, a agressividade aparece, posteriormente, como uma tentativa desesperada de “consertar” essa falha, de obrigar o outro – colega, analista, parceiro, chefia – a finalmente atender a uma necessidade fundamental antiga.


Da passividade à introjeção: a gênese da agressividade traumática

Sándor Ferenczi[13] tratou do tema do impacto violento do meio sobre a criança ao descrever o mecanismo de identificação desta com o agressor, quando ela vivencia um trauma (seja por agressão física ou por abuso sexual/emocional). Para ele, a criança nesses casos não apenas sofre passivamente, numa sujeição total ao outro, mas sofre também uma transformação em sua personalidade: para sobreviver ao medo extremo, ela "absorve" o agressor dentro de si. Tal "introjeção" da agressividade do outro explica porque o trauma pode se desdobrar em comportamentos agressivos futuros ou em uma culpa avassaladora.


A passividade como defesa: o silêncio de si e a sobrevivência no outro

Se a agressividade pode ser uma tentativa de "consertar" o ambiente, a passividade social e a dificuldade de diferenciação em relação ao outro surgem, muitas vezes, como uma estratégia de sobrevivência psíquica diante de um meio que não deu suporte à espontaneidade do sujeito ou não atendeu suas necessidades mais essenciais. Usando os mesmos referenciais, compreendemos esse fenômeno como uma organização defensiva rígida. Vejamos algumas possibilidades disso.


A alienação no espelho: o medo de perder o olhar ao dizer "não"

No estádio do espelho, se o "espelho" (o grande Outro) é sufocante ou condicional demais — isto é, se a criança sente que só é amada enquanto reflete exatamente o que o outro deseja — o eu pode se estruturar de forma completamente alienada (no desejo do outro).


  • O "Não" impossível: Dizer "não" ou opor-se a uma opinião ou decisão de outra pessoa é vivido, imaginariamente, como quebrar o espelho. Se o sujeito só existe através do olhar de aprovação do outro, o conflito não é visto como uma divergência de opiniões, mas como um risco de desintegração da própria imagem[18]. Sem a concordância do outro, o sujeito "desaparece", perdendo o suporte que o sustenta.


O falso self complacente: a submissão como proteção

Para Winnicott[1], quando o ambiente é intrusivo e não reconhece o gesto espontâneo do bebê (sua agressividade), este é forçado a reagir às exigências externas antes mesmo de ter um "eu" sólido. O resultado é a organização de um “falso self” complacente (falso “eu”).


  • A "casca" da aceitação: A pessoa torna-se "excessivamente boa", educada e submissa. Essa passividade é uma "casca" que protege o “self verdadeiro”, que permanece escondido e isolado para não ser aniquilado.


  • A inibição do aparecer: "Aparecer" subjetivamente com uma vontade própria é perigoso, pois, na história do sujeito, o gesto próprio foi seguido de uma invasão do outro ou de um abandono (deprivação). Assim, a passividade é o preço pago para manter o vínculo e evitar a "agonia impensável" da separação.

Pessoas em uma festa formal; mulher ao centro parece feliz e serena, mas ao lado aparece sua imagem interna verdadeira - chorando e triste. Representação do falso self (falso "eu"). Ambiente luxuoso e emotivo; tons escuros.

O agarrar-se ao objeto no horror ao conflito

Na lógica da falha básica, Balint[17] descreve que, diante da insegurança profunda gerada pela falha inicial, há indivíduos que podem sentir que o "espaço entre as pessoas" é aterrorizante e vazio.

  • O horror ao conflito: Para esses indivíduos, o outro é a única fonte de segurança. Confrontar uma injustiça ou opor-se a um abuso significaria soltar o objeto ao qual ele se agarra desesperadamente. A pessoa prefere sofrer a invasão (o "machucar") do que arriscar a distância que o conflito impõe. A passividade é, aqui, a cola que impede que a falha básica se abra novamente.


A renúncia de si para lidar com um trauma

Retomando a identificação com o agressor, Ferenczi[13] mostra que, sob trauma ou pressão extrema, a criança "adivinha" os desejos do adulto para se proteger. Isso gera uma sensibilidade aguda ao desejo alheio em detrimento do próprio.


  • A "criança sábia" e passiva: O sujeito aprende a falar a "língua" que o outro quer ouvir. Ele se torna um mímico emocional: aceita exigências descabidas e silencia sua dor porque, em sua experiência traumática, sua vontade foi desintegrada. A passividade social é o resíduo desse medo paralisante: a pessoa não confronta o abusador porque, psiquicamente, ela ainda está "ocupada" pelo ódio e pela vontade desse agressor, não sobrando espaço para o seu próprio eu manifestar-se.


Quando a falta de agressividade faz adoecer

É relativamente fácil perceber como o excesso de agressividade adoece sociedades inteiras: guerras, conflitos armados locais, explosões de ódio contra minorias, violência de gênero, bullying, linchamentos virtuais. Mas, do ponto de vista clínico, a falta de agressividade também pode trazer muito sofrimento individual.


A dificuldade de dizer "não" ou de sustentar uma opinião, o horror ao conflito (mesmo quando necessário), a submissão ou a simpatia excessiva não são uma falta de vontade, mas uma cicatriz de desenvolvimento. A capacidade de entrar em conflito sem temer a destruição total é uma conquista da saúde psíquica, que depende da segurança de que o eu e o outro podem sobreviver à divergência — uma segurança que, em alguma medida, faltou nas experiências originárias desses sujeitos.


Como a análise ou a terapia podem “trabalhar” a passividade social?

Em psicanálise, a pergunta central diante da passividade social não é “como tornar alguém mais agressivo?”, mas o que aconteceu (e acontece) com a agressividade desse sujeito e de que forma isso contribuiu para a sua constituição subjetiva? Em linhas gerais, é possível distinguir dois grandes cenários.


Quando havia agressividade na infância

Primeiro, é importante investigar – pela própria narrativa do analisando, por relatos de familiares, por sonhos e associações "livres" – se havia sinais de sua agressividade na tenra infância.


Se havia, a questão passa a ser: o que aconteceu com essa agressividade? Algumas possibilidades:

  • Foi punida, gerando medo de repetir qualquer gesto semelhante;

  • Foi desqualificada ou ridicularizada ("que feio", "que drama", "você não tem motivo para isso"), o que pode ter levado o sujeito a voltar sua raiva contra si mesmo;

  • Nunca encontrou um ambiente suficientemente bom que pudesse reconhecer e conter essa força, transformando‑a, pouco a pouco, em capacidade de preocupação com o outro e de reparação.

  • etc.


Nesses casos, o trabalho analítico tende a caminhar por alguns eixos:

  • Compreender as defesas erguidas contra a própria agressividade (medo de enlouquecer, de machucar alguém, de ser abandonado se ousar, etc.).

  • Oferecer um enquadre em que algo da agressividade possa aparecer – na transferência (na relação com o analista), em pequenas contrariedades, em críticas ao analista – sem punição, “sobrevivendo” aos ataques do sujeito.

  • Ajudar a simbolizar o que antes só podia vir em ato ou em sintomas: nomear a raiva, a inveja, o ciúme, o ressentimento, em vez de apenas adoecer ou sumir.


Christopher Bollas[19], ao falar do “objeto transformacional”, descreve como certas relações e experiências permitem ao sujeito sentir que algo em seu ser se transforma, sem que ele precise se desfazer de si mesmo. Em muitos processos analíticos, o encontro com um analista que não devolve a agressividade em forma de vingança ou de repreensão pode funcionar, justamente, como essa experiência transformadora.


Quando a agressividade sempre pareceu ausente

Há casos em que, pela história relatada, pela observação e mesmo por informações de terceiros, não se encontra, aparentemente, traço forte de agressividade própria na infância. São pessoas que “sempre foram boazinhas”, “sempre evitaram briga”, “sempre foram conciliadoras”.


Nessas situações, o trabalho pode incluir:

  • Estimular a percepção de injustiças cotidianas que a pessoa naturaliza – pequenas invasões, sobrecargas, desrespeitos.

  • Autorizar afetos incômodos (raiva, impaciência, frustração) como parte legítima da vida psíquica, e não como falha moral.

  • Ensaiar, na própria relação analítica, formas de discordar, pedir algo, recusar algo, sem que isso destrua o vínculo.


Autores como Balint[17] e Winnicott[20] ajudam a pensar que, em alguns quadros, lidar com a passividade social demanda caminhar no sentido de curar a "rachadura" da falha básica, o paciente precisa regredir a um estado de dependência onde o analista funciona como uma "substância" ou "ambiente" confiável, permitindo que o sujeito "nasça de novo" psiquicamente.


Exercitar uma agressividade que protege sem destruir

Em um mundo em que o discurso do “eu posso e mereço” frequentemente suplanta o do “mas será que devo?” ou o do “o meu direito vai até onde começa o direito do outro”, é compreensível que muitas pessoas que temem a própria agressividade prefiram ficar em posição passiva. Como se qualquer gesto de força as aproximasse daquele cenário de violência que tanto as assusta.


No entanto, uma das tarefas do amadurecimento emocional talvez seja justamente distinguir entre a agressividade que destrói e a que protege. Uma agressividade que pode e deve ser convocada quando:

  • A pessoa corre o risco de ser subjugada, oprimida ou explorada.

  • Para conquistar algo legítimo, é preciso ousar – por exemplo, mudar de trabalho, terminar uma relação abusiva, denunciar uma violência.

  • É necessário defender alguém mais frágil (um filho, um idoso, uma minoria vulnerável) de injustiças claras.

  • etc.

Mão levantada com "NÃO" escrito em vermelho. Ao fundo, uma pessoa desfocada, fundo verde escuro. Atmosfera de resistência.

Do ponto de vista clínico, isso supõe ajudar o sujeito a:

  • Integrar sua agressividade ao seu senso de si, em vez de vê‑la como algo totalmente estranho ou perigoso.

  • Passar do ato mudo à palavra: em vez de explodir ou de se omitir, poder dizer “não”, “basta”, “é demais para mim”.

  • Aceitar a desilusão narcísica de não ser especial, de não controlar tudo e todos, sem por isso se jogar na completa passividade ou no ódio contra o mundo.


Em última instância, trata‑se de algo que a própria psicanálise, desde Freud, foi convidando: sair do agir cego para poder falar sobre o que nos move. Numa época em que o ato violento muitas vezes toma o lugar da palavra, talvez uma função importante do trabalho analítico seja justamente esta: restituir ao sujeito a possibilidade de usar sua agressividade em favor da vida, e não contra ela.


Antônio C. de Barros Jr.

Psicólogo clínico/ psicanalista/ psicoterapeuta

Doutor e mestre em Psicologia pela USP.

Autor do livro: Quem vê perfil não vê coração: fragilidades narcísicas e a construção de imagens de si nas redes sociais. Editora Escuta.

Ex-membro da Associação Campinense de Psicanálise (2004 a 2010).


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Referências

[1] WINNICOTT, Donald W. Distorções do ego em termos de verdadeiro e falso self (1960). In: _________. O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1990.

[2] WINNICOTT, Donald W. O uso de um objeto e a relação por meio de identificações (1969). In: _______. O brincar e a realidade. São Paulo: Ubu, 2019.

[3] WINNICOTT, D. W. A agressividade em relação ao desenvolvimento emocional (1950-55). In: _______. Da pediatria à psicanálise. São Paulo: Ubu, 2021.

[4] ŠNELE, Miljana Spasić; TODOROVIĆ, Jelisaveta; NIKOLIĆ, Miljana. Personality traits and tendency towards psychosomatics. Psychological Applications and Trends 2024. Disponível em: https://doi.org/10.36315/2024inpact107

[5] NOACK, Isabel; LINDEN, Michael. Complaints about bullying at the workplace are related to fantasies of aggression in psychosomatic patients. Work, v. 69, n. 4, p. 1343-1349, 2021. Disponível em: https://doi.org/10.3233/WOR-213554

[6] FREUD, Sigmund. Luto e melancolia (1917 [1915]). In: _______. Obras Completas, volume 12: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução e notas Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

[7] FREUD, Sigmund. Os instintos e seus destinos (1915). In: _______. Obras Completas, volume 12: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos (1914-1916). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

[8] FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920). In: _______. Obras Completas, volume 14: História de uma neurose infantil (“O homem dos lobos”), Além do princípio do prazer e outros textos (1917-1920). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

[9] DAHL, Audun. Infants' unprovoked acts of force toward others. Developmental science, v. 19, n. 6, p. 1049–1057, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.1111/desc.12342

[10] BLOOM, Paul. O que nos faz bons ou maus: as origens do bem e do mal. Tradução de Cássio de Arantes Leite. Rio de Janeiro: Sextante, 2014.

[11] WIDOM, C. S. The cycle of violence. Science, v. 244, n. 4901, p. 160-166, 1989. Disponível em: https://doi.org/10.1126/science.2704995.

[12] SROUFE, L. A.; EGELAND, B.; CARLSON, E. A.; COLLINS, W. A. The Development of the Person: The Minnesota Study of Risk and Adaptation from Birth to Adulthood. New York: Guilford Press, 2005.

[13] FERENCZI, Sándor. Confusão de línguas entre os adultos e a criança (1933 [1932]). In: ______. Psicanálise IV (Obras Completas). Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 1992. p. 97-106.

[14] LACAN, Jacques. O estádio do espelho como formador da função do eu tal como nos é revelada na experiência psicanalítica. In: ______. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 96-103.

[15] WINNICOTT, Donald W. O papel de espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil (1967). In: _______. O brincar e a realidade. São Paulo: Ubu, 2019.

[16] WINNICOTT, Donald W. A tendência antissocial (1956). In: ________. Da pediatria à psicanálise: textos selecionados. Tradução de Davi de Oliveira Pinto e Adail Sobral. São Paulo: Ubu Editora, 2022.

[17] BALINT, Michael. A falha básica: aspectos terapêuticos da regressão. Tradução de Dayton de Alencar. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

[18] LACAN, Jacques. Agressividade em psicanálise. In: ______. Escritos. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1998. p. 104-126.

[19] BOLLAS, Christopher. A sombra do objeto: psicanálise do conhecido não pensado. Tradução de Adail Sobral. São Paulo: Escuta, 1992.

[20] WINNICOTT, Donald W. Formas clínicas da transferência (1955-56). In: ________. Da pediatria à psicanálise: textos selecionados. Tradução de Davi de Oliveira Pinto e Adail Sobral. São Paulo: Ubu Editora, 2022.

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