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Dos sofrimentos narcísicos à desilusão libertadora

Foto do escritor: Antonio C. de Barros Jr.
Antonio C. de Barros Jr.
15 de jan. de 2023
5 min de leitura

Ao contrário do que o senso comum faz parecer, pessoas com considerável narcisismo não são pessoas que apenas investem em si mesmas, que se preocupam somente consigo mesmas e se bastam. São pessoas que, mais do que ninguém, precisam de um espelho – de um outro - que confirme a sua importância, o seu valor[i].


E entre elas estão um leque bastante amplo que inclui desde aquelas que se sentem extremamente inseguras e inibidas, com muito medo do julgamento alheio, até aquelas muito bem sucedidas profissionalmente e que são superficialmente muito seguras de si, mas que se atormentam com o peso de sua imagem pública, pondo todo um jogo de cena para não se mostrarem naquilo que de fato sentem e pensam. Leque que inclui desde aquelas pessoas que se ofendem ou se machucam por qualquer gesto ou palavra sutil que supostamente denuncie uma desaprovação ou um não reconhecimento do outro até aquelas que reagem muito agressivamente ao menor sinal de que estejam sendo ameaçadas ou atacadas pelo outro (mesmo quando não o estão, de fato). Uma colega descreveu essas últimas como tendo pele de bebê e garras de águia.


A cultura do individualismo (“você pode!”, “só depende de você!”, “você merece!”), do espetáculo (do parecer ser, segundo Guy Debord[ii]) e das redes sociais digitais estimula o narcisismo exacerbado como sintoma social dos nossos tempos[iii], mas é preciso dizer que o narcisismo em todos nós exerce um papel fundamental em nossa constituição e na relação com o outro.

Se, no nosso desenvolvimento emocional, tivemos um ambiente suficientemente bom, que pôde, consistentemente, atender nossas necessidades físicas e psíquicas, então é provável que tenhamos desenvolvido o nosso narcisismo, que tenhamos nos integrado como uma pessoa “inteira”, com a sensação de que existimos e de que temos valor[iv].


Se tudo correu suficientemente bem, quando bebês, segundo Winnicott[v], experimentamos a ilusão de que nós é que criamos o mundo (por exemplo, o leite, magicamente, aparecia quando tínhamos fome; a mãe, num piscar de vontade nossa, surgia quando nos angustiávamos por estarmos sozinhos e desamparados). Experimentamos a ilusão de que as coisas e as pessoas giravam em torno de nós (estado fusional com a mãe, mundo não existindo como algo externo a nós). Sem isso, corre-se o risco de uma existência não integrada em um eu, ameaçada de desmoronar e ser aniquilada em angústias impensáveis[vi].

Mas, se tudo correu bem, também nos demos conta, posteriormente, de que isso não é verdade. Vivenciamos a desilusão dessa onipotência narcísica, passamos a perceber o outro como realidade externa a nós, como tendo suas próprias vontades, necessidades e seus próprios desejos[vii], ainda que alguma ilusão sempre permaneça.


O que tem aparecido, na minha clínica, na de colegas e supervisionandos(as), cada vez mais, são casos de sofrimento ligados a alguma questão narcísica, de algo que falhou no processo de desenvolvimento das pessoas, num mundo em que cada vez mais as pessoas se expõem e em que a imagem de si para o outro torna-se tanto fator de gozo jubilatório, muitas vezes, quanto de expressão de fragilidade narcísica insuportável.


E cada caso demanda um tipo diferente de abordagem do clínico – às vezes requer um fortalecimento do eu do sujeito, já que se mostra absolutamente fragilizado; outras vezes requer um paulatino questionamento sobre as suas ilusões narcísicas. Frequentemente pede a reconstituição da história do sintoma que se instalou no modo de se relacionar da pessoa, outras vezes pede a reconstrução e o atravessamento da fantasia em que o sujeito se constituiu, na busca de atender um desejo de onipotência primitiva.

O risco do(a) analista/ terapeuta sempre é o da palavra mal colocada, que arranha, antes da hora, a ilusão narcísica do(a) paciente ou faz desmoronar o seu eu que não lida nada bem com suas fragilidades. O risco é de se deixar levar pelo desejo de triunfo sobre o outro de alguns analisandos(as), ávidos(as) por reconfirmarem sua suposta superioridade. O risco é não tolerar a agressividade sintomática da pessoa, quando reage à sensação de estar sendo ameaçada pelo analista/ terapeuta. O risco é não saber, em cada situação, se é melhor atender ou não atender a demanda daquele(a) que nos procura e o que isso implicará.


Enfim, o que a clínica e as pessoas que atendo vêm me ensinando é que é preciso inventar uma abordagem para cada caso que se apresenta, é preciso estar aberto e ter uma atitude de hospitalidade (para usar um termo de Márcio Giovanetti[viii]) em relação à alteridade e à singularidade do outro que chega até mim. É preciso ter a sensibilidade de ver onde e quando cabe acolhimento, questionamento ou reconhecimento; ter a sensibilidade de ver onde e quando cabe alguma interpretação ou a regressão a um tempo onde algo falhou no desenvolvimento narcísico da pessoa.


Na esteira do que recomendava Winnicott[ix], tenta-se, sobretudo, trazer a cada paciente a possibilidade de brincar na vida, mesmo diante do drama e da dor de encarar a desilusão narcísica. Se, nesse sentido, muitas vezes a jornada clínica traz êxitos, também traz fracassos e, então, é preciso se haver com a desilusão narcísica do próprio analista/ terapeuta.

O perigo de nossos tempos é acreditar que é possível se manter (cada vez mais) narcisicamente iludido(a) – por exemplo, pelas curtidas embriagadoras em redes sociais[x] ou pelas fake news, que nos relatam aquilo que queremos ver e ouvir. As consequências disso costumam se mostrar na forma de sofrimentos (sintomas) cada vez mais alienantes e enrijecidos e na forma de passagens ao ato violentas, que tentam, desesperadamente, cobrir fragilidades que ameaçam aparecer (como no caso de depredações do patrimônio público, agressões físicas ou verbais ou mesmo assassinatos de pessoas), diante da frustração de sujeitos que não tiveram seus desejos narcísicos satisfeitos (como perder uma eleição, para citar eventos recentes na história do país).


A saída, parece-me, só se dá pela experiência da desilusão (ainda que algum grau de ilusão sempre permaneça), no tempo e na forma que cada pessoa demandar. E depois (re)aprender a brincar, mesmo “desiludido(a)” (ou justamente por causa disso...).


Antônio C. de Barros Jr.

Psicólogo clínico/ psicanalista/ psicoterapeuta

Doutor e mestre em Psicologia pela USP.

Autor do livro: Quem vê perfil não vê coração: fragilidades narcísicas e a construção de imagens de si nas redes sociais. Editora Escuta.

Ex-membro da Associação Campinense de Psicanálise (2004 a 2010).


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[i] LACAN, Jacques. O estádio do espelho como formador da função do eu. In: LACAN, Jacques. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998. WINNICOTT, Donald W. O papel de espelho da mãe e da família no desenvolvimento infantil. In: WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. São Paulo: Ubu, 2019. [ii] DEBORD, Guy. La société du spectacle. (3a ed.). Paris, France: Gallimard, 1992. (Trabalho original de 1967). [iii] BARROS JÚNIOR, Antônio C. de. Quem vê perfil não vê coração: fragilidades narcísicas e a construção de imagens de si nas redes sociais. São Paulo: Editora Escuta, 2018. [iv] WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983. [v] WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983. [vi] WINNICOTT, Donald W. O ambiente e os processos de maturação: estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional. Porto Alegre: Artes Médicas, 1983. [vii] WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. São Paulo: Ubu, 2019. [viii] GIOVANETTI, Márcio de Freitas. Clínica psicanalítica: testemunho e hospitalidade. São Paulo: Blucher, 2018. [ix] WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. São Paulo: Ubu, 2019. [x] BARROS JÚNIOR, Antônio C. de. Quem vê perfil não vê coração: fragilidades narcísicas e a construção de imagens de si nas redes sociais. São Paulo: Editora Escuta, 2018.



115 comentários


232cuddly
há 4 dias

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há 4 dias

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232cuddly
14 de out.

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232cuddly
14 de out.

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14 de out.

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© 2025 Antônio Carlos de Barros Jr. psicanalista/ psicólogo clínico/ psicoterapeuta

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